A grande decepção
Postado: 27 de julho de 2010
Visitantes: 250 Categoria: Causos
Mais um causo de Osmário Martins Ribas, revelando um segredo de família
Desde menino, ouvia meu avô contar muitas e muitas histórias. Relativo à
sua vida, suas viagens, tocando gado como tropeiro, Juiz de Paz em
Tibagi, fatos da Revolução de 30 (quando quebrou a perna), de sua época
de moço em Castro na adolescência e, finalmente, como chefe do Posto
Índigena de Tamarana, que pertencia ao Município de Londrina. Isso
durante o Governo do Interventor Manoel Ribas. Nomeado que foi a pedido
de seu primo Alvaro Martins de Albuquerque, que era na ocasião Secretáro
Estadual do Trabalho.
Em todos esses acontecimentos, João Martins
sempre falava no nome do seu primo Dewet Taques (lê-se "devete"). Dizia que a amizade deles
era mais que de sangue. O Dewet era tudo que se pode chamar de um homem
perfeito, no dizer de João Martins. Era Dewet pra cá e Dewet pra lá.
Nos idos de 1966, morava eu em Castro, e João foi até lá fazer alguns
exames com o Dr. Libânio Cardoso e ficou hospedado em nossa casa. Meu
pai, Abrilino Barbosa Ribas. havia poucos meses falecido. Eu estava
iniciando minha atividade em comércio (e bem que se diga, me dei muito
mal). E após alguns exames, foi pedido um que teria que ser feito em
Ponta Grossa, porque em Castro não havia aparelhagem. Meu carro, estava
em conserto em oficina. E o exame tinha que ser feito dali a 3 dias. Dewet vinha todas as manhãs visitar João e tomar chimarrão,
onde ficavam horas rindo e conversando do tempo antigo. Muitas vezes,
ficava eu ali ao lado, tomando chimarrão, ouvindo as histórias e também
contando algumas da época atual. Como estava sem carro e não poderia
levá-lo a P. Grossa, eu disse-lhe "Vô, vou falar com o meu amigo Eurico
Novaes" (tinha de idade nesse tempo Eurico mais de 60 anos). Era
tataraneto de Jósé Felix, o Senhor da Fortaleza. João foi categórico e
me disse "de jeito algum, quem vai me levar a P. Grossa será o Dewet,
amanhã quando ele vir tomar chimarrão, basta eu dizer a ele que tenho que
fazer esse exame e imediatamente ele vai me conduzir até P. Grossa, não tenha dúvidas". Eu, não confiando muito, retruquei e falei "será? -
confia tanto assim?" e ele "menino, você não sabe a amizade que existe
entre nós há mais de 70 anos". "Tudo bem, que essa amizada prevaleça" foi o
que disse.
No outro dia, Dewet, como de costume, lá estava tomando
chimarrão e conversando. Eu fiquei ali presente de testemunha, para ver o
que iria acontecer. O Vô disse "Dewet, eu tenho que ir a P.Grossa fazer
uns exames e o Mario esta com o carro na oficina". De pronto Dewet
falou "que pena João, eu não vou poder levá-lo porque a camioneta está
carregada e eu e Clarice (sua esposa), vamos amanhã para a Fazenda". Vi
naquele momento nos olhos de meu avô a grande decepção de sua vida. Logo
em seguida o Dewet se despediu e o Vô com os olhos marejados de
lágrimas, falou "Mário, infelizmente você tinha razão". Ele não pronuciou o
nome e frisou "nunca mais quero ver essa pessoa na minha frente. Por
favor, nunca conte isso a ele".
No outro dia, levamos o Vô a P. Grossa,
juntamente com o Eurico Novaes. Foi daí que surgiu o relio que hoje está
no Museu de Castro, doado pelo Eurico, presente de João Martins. E do
qual eu tenho um igual. Logo em seguida que meu avô retorna a Curiúva,
começa a passar mal e a doença, dizia o médico Dr. Rezende da Lagoa, que
era hidropsia (água no organismo). Na realidade o que o Vô tinha era
pressão alta e problema renal. Mas, como a medicação na época não era
eficiente e Curiúva não havia recursos, foi cada vez mais ficando
debilitado e muito fraco. Respirava no balão de oxigênio. Por várias
vezes me desloquei de Castro para visitá-lo. Dewet sempre me
perguntava do estado do João e me dizia que eu teria que levá-lo a
Curiúva para ver o João. Em uma das viagens, comentei com o Vô que o
Dewet gostaria de ir visitá-lo e que estava me pedindo para eu levá-lo.
Foi aí que ele me falou o seguinte: "Por favor não me traga essa pessoa
aqui, quero morrer sem vê-lo, e se vier não falo com ele". Me vi
obrigado a levar o sr. Dewet a Curiuva, deixei-o na sala, entrei no
quarto e disse ao Vô "o Dewet está ai, veio vê-lo". Aí me disse "ponha no
meu nariz o oxigênio, entre junto, e diga a ele que estou dormindo e
que não posso falar". Assim foi feito, o Dewet ficou em pé ao lado da
cama e murmurou algumas palavras de conforto. O Vô não abriu os olhos.
E o Dewet saiu lacrimejando e muito triste. Na viagem de volta, ele
após um grande silêncio, me interpelou: "Mário, me diga uma coisa, o João
ficou com alguma mágoa minha?" Eu disse "acho que não porque teria?". Ele
falou será que eu não errei com ele quando ele me falou que tinha que ir
a P. Grossa e você estava sem carro?" Falei "não, o Eurico Novaes o
levou" E ele "mas João não conhecia Eurico!" Daí afirmei "o Eurico é meu
amigo. Eu pedi e ele prontamente levou o Vô em P. Grossa".
Estou contando esta história porque todas
essas pessoas que declinei o nome já morreram e cumpri com a promessa ao
meu Avô de nunca comentar esse caso enquanto vivos fossem. Nos anos
70, quando eu morava já em Curitiba, e o Dewet, também já víuvo, casado
novamente, o encontrei e ele me falou que tinha muitas saudades do meu
avô e que ele achava que tinha uma dívida com ele e que não pôde
pagar.Enfim, tudo aconteceu dessa forma e a única pessoa viva que ainda pode saber
parte dessa história é o Javert. Porque ele deve lembrar da
visita do Dewet na nossa velha casa.
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