O telegrama de João Desidério
Postado: 29 de junho de 2010
Visitantes: 252 Categoria: Causos
O Rio Tibagi era cheio de diamantes
Tibagi estava na época áurea dos
diamantes e, para que todos possam entender, vou historear o que se
passava em Tibagi naqueles anos de vacas magras dos anos de 1920 a
1940. Foi nessa época que iniciou uma migração de muitas famílias
oriundas da Bahia para Tibagi. Levados que eram pela fama que corria em
todo o Brasil que o rio Tibagi era o rio mais rico do mundo em
diamante. E que diamante era achado em cascalho às margens do rio. Até
certo ponto isso era verdade. Com essas notícias e como o Brasil vivia
crise sem igual, porque não havia nada no País a não ser a cana de
açúcar e os cafezais de Minas, São Paulo e iniciando no Paraná. E como
ganho fácil sempre atrai os gananciosos, Tibagi de repente se viu inundada por aquela leva imensa de baianos, que ali se radicaram,
alguns se tornaram políticos, outros comerciantes e alguns ficaram
somente no garimpo de diamante.
Mas, de repente rareou no rico rio
Tibagi a famosa pedra, e alguns baianos começaram a deixar a cidade
indo a outros recantos do imenso território brasileiro em busca de
riqueza. Havia um funcionário dos Correios e Telégrafos de nome "João
Desidério", naquela época os correios remuneravam muito mal o seus
empregados. E diziam que João Desidério era uma das pessoas mais
pobres do Tibagi, ele era na ocasião estafeta. Para quem não sabe, estafeta é aquele indivíduo que faz entrega de correspondência. Vivia
assim João, com parcos recursos, trabalhava muito, pois entregava
cartas até no Caetê, então distrito de Tibagi, a mais de 80km da sede.
Eis que, também de repente, começou a
florescer novamente no rio Tibagi o diamante, a cidade se arvorou, era
banda de música, era uma festa só. E aí um baiano que lá ficou, de nome
Rogaciano, enviou um telegrama a um compadre que havia mudado
para outras plagas com os seguintes dizeres: "Compadre Durães, Tibagi
muito bão, venha dormindo, até João Desidério, terno de casimira". Ou seja, mandou que o compadre viesse sem medo, porque a situação estava tão boa que até um pobre como João Desidério vestia terno com tecido nobre.
Quem que redigiu esse texto foi o telegrafista Pedro do Dário, e foi ele
que contou aos tibagianos desse telegrama. Eu o conheci quando morei em
Tibagi, os dois, sendo que o Pedro foi quem ensinou o Mano a arte do
telégrafo. Pedro, morreu há poucos anos, tive o privilégio de conversar
com ele várias vezes quando ia a Tibagi.
Pedro contava muitas histórias de telegramas muito interessantes que se
via obrigado a escrever, haja vista que, naquela época, poucas pessoas
sabiam escrever. E aqueles que dominavam a lingua portuguesa enviavam
telegramas exagerados. Que foi o caso do Guataçara Borba Carneiro, que
recebeu um telegrama de Castro de um agregado seu que foi lá servir o
exército e mandou um telegrama ao Guata nos seguintes termos:
"Guataçara, mande-me cem contos ou relação cortada!" Guata, respondeu da
seguinte forma: "Relação cortada e vá PQP!" e assim corria a vida no velho
Tibagi de tantas e tantas histórias, que devagar vou contando. Vou
contar qualquer dia uma historia que ocorreu comigo e um parente do meu
avô de nome Dewet Taques. Essa é muito boa, e ocorreu poucos dias de
sua morte. Mas fica para outra ocasião.
Osmário Matins Ribas
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