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E agora, José?

Postado: 15 de maio de 2009
Visitantes: 260 Categoria: Causos


por Andrea Santos

E isto é fato, não um “causo”, daqueles que nós, curiuvenses, tanto apreciamos. Mas o fato é que, lá pelos idos dos anos 70, e quem esteve lá, certamente se lembra, aqui em Curiúva, espalhou-se o boato que nascera um bebê cabeludo, com dentes, e falando. Falando que no dia 7 de setembro daquele ano o mundo acabaria em tempestade de vento, e granizo caído do céu. Falou e logo morreu.

 De onde saem esses boatos, até agora, não sei. Muito menos menina nova, nos meus oito, nove anos. O caso é que a história se espalhou feito rastilho de pólvora, não se falava de outra coisa, no Gabriel Rosas, à época o único “Grupo Escolar” da cidade, e no José de Alencar, o único “ginásio”.

 Ensaiamos para o desfile, por incontáveis dias, para “fazer bonito no dia”, e ai do desavisado que não marchasse decentemente, no compasso da fanfarra. Castigo nele, e vergonha de não participar do desfile (o que, na época, era castigo, mesmo, com tão pouco ou quase nada para se distrair, além de nadar no riozinho da pontinha que vai para o Guajuvira, e que tinha água, sim senhor, e não era essa coisa triste e assoreada que é hoje).

 Bons tempos de saudosos professores, que Graças a Deus ainda estão vivos, porém distantes, como Edenil, Uilse, Marli, Eliane, Luiz Antônio, Rosemary e tantos outros, além dos que ainda aqui residem, os “da antiga linha dura” que funcionava e dava frutos, a gente aprendia era de verdade.

 Além do desfile, onde todos fizeram muito bonito, então devidamente enfileirados e perfilados (porque naquele época era assim com muito gosto e orgulho, maior sentimento de patriotismo, mesmo), autoridades presentes no palanque, especialmente montado na Praça da Igreja, professores muito orgulhosos da performance de seus alunos, enfim, tudo muito bem, o professor Luís Antônio, irmão da D. Eliana, juntamente com a professora Marli, sua irmã, apresentavam um jogral, da poesia “E agora, José?”, do Carlos Drumond de Andrade.

 Começaram bem, vozes empostadas, sérios, ele declamando “E agora, José? A festa acabou...”, e já no início da declamação, o tempo começa a virar, vem um vento, sei lá de onde, a criançada começa a se mexer, vai olhando para o céu, ele continuando: “a luz apagou...” e começa a escurecer, o vento subindo os aventais da criançada do grupo, poeira nos olhos, cabelo espalhando, não adiantando muito a cara feia das professoras, um psiu feito com o dedo em riste, sinalizando ordem.

 De repente, quando o Luiz Antônio, no meio da estrofe: “o povo sumiu...E agora José?” começa a cair granizo, era pedra descendo do céu, sem dó, batendo nos braços e pernas finos da gurizada, nem os professores, nem autoridade, que nada, nem ninguém ficou para ouvir o final, era todo mundo correndo, aquela gritaria de “tá acabando o mundo” para todo lado, criança chorando, as mães na maior angústia procurando seus filhos espalhados no meio da confusão, para piorar, as portas da igreja fechadas, até o Padre Henrique “virou um uru na palhada”, o jeito foi correr a toda para dentro do Bar do “Seo Dito” (Ramos, onde era a parada dos ônibus), ou para a Sorveteria do Nelsinho, isso os que não esperaram pela tempestade que caiu, ENORME, como há muito não se via uma igual em Curiúva, com direito a muitos raios e trovões, cortando o céu, negro feito piche, aquela escuridão de morte.

 Enfim, foi aquele auê, que depois, é claro, entrou para os causos de Curiúva, pelo menos na lembrança daqueles que assim como eu, lá estiveram, e com certeza ainda se lembram do episódio, que virou só caçoada depois; e por longo tempo, um perguntava para o outro, quando alguma coisa ficava “feia”: “E agora, José?”

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 Esta é uma singela homenagem a todos aqueles nossos antigos professores, que eram linha dura, mas ensinavam com muito amor e dedicação, realmente comprometidos com o aprendizado e futuro de seus pupilos.

 

Andréa Prestes Mayer dos Santos

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